No primeiro dia de julgamento dos acusados pelas mortes da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, nesta terça-feira (24), as famílias lidam com a dor da perda, mas enfrentam o julgamento com esperança na condenação, quase oito anos após os assassinatos, que ocorreram no Rio de Janeiro.
Na sede do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, a família de Marielle conversou com a imprensa, antes do início da sessão. A mãe da vereadora assassinada, Marinete da Silva, disse que vai seguir até o fim em busca de justiça.
“Que a justiça seja feita. É um momento difícil, mas também de muita esperança diante de tudo o que a gente tem vivido esses oito anos. Tem sido, além de uma experiência de dor, que não é possível dizer, ressignificar o que é isso, de uma dor de uma mãe depois de tanto tempo, mas é para dizer que a gente confia muito nessa instituição, que é hora da gente também ter, o Estado brasileiro, o estado do Rio de Janeiro, principalmente, ter uma resposta positiva em relação aos mandantes dessa barbárie, que vamos seguir até o fim”.
A viúva do motorista Anderson Gomes, Ágatha Reis, também veio acompanhar a sessão em Brasília e disse que “o julgamento de hoje tem o poder de dar uma resposta muito importante”. Ela lembra que o filho do casal perdeu o pai quando tinha apenas um ano.
Brasília (DF), 24/02/2026 – Ágatha Reis, viúva de Anderson Gomes, durante entrevista antes do inicio do julgamento dos acusados no STF – Valter Campanato/Agência Brasil
“O julgamento de hoje tem o poder de dar uma resposta muito importante de que posições institucionais não servem de blindagem para a prática de crimes. Não mata só quem puxa o gatilho, mas quem obstrui a investigação, quem ordena matar, quem paga pela morte de alguém. Justiça não é um sentimento, é um processo, ela precisa ser concreta. Oito anos é praticamente a vida inteira do nosso filho, ele já está há mais tempo sem o Anderson do que com o Anderson. É tempo demais para quem espera por resposta”.
Filha de Marielle, a diretora do Instituto Marielle Franco, Luyara Franco, disse estar confiante na condenação e se emocionou ao dizer que, apesar disso, é um “dia difícil”.
“Hoje é um marco de novo para o Brasil, porque o Estado brasileiro precisa dar resposta para a sociedade, para a democracia, que a gente não pode deixar impune. A justiça plena para minha mãe e para o Anderson passa pela responsabilização, passa pela não repetição e pela reparação para nossas famílias. Então, hoje é um dia muito difícil, é o dia que a gente sonha e sonhava acontecer nesses últimos oito anos. Então, quero agradecer a todo mundo que fortalece a nossa luta e que amanhã a gente saia com a vitória”.
Brasília (DF), 24/02/2026 – Luyara Franco, filha de Marielle. – Valter Campanato/Agência Brasil
Também presente na sede da Suprema Corte, a irmã de Marielle Franco e ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, lamenta que a resposta da justiça muitas vezes seja uma exceção, quando deveria ser o direito de todas as famílias. E destacou a simbologia desse tipo de crime contra pessoas negras e periféricas.
“Essa resposta também que pode sair daqui hoje e amanhã é uma resposta à democracia, para aquelas pessoas que acham, que ainda acham, que essa tríade quando você junta política com milícia; para que se fique de exemplo também que nenhum crime merece ficar impune. Acharam, de verdade, que o corpo da minha irmã seria um corpo descartável, como pensam sobre muitos corpos do nosso país, a maioria, sobretudo de pessoas negras, pobres, faveladas e periféricas. E é para isso que a gente está aqui, a gente vai fortalecer e seguir até o final”.
O pai de Marielle Franco, Antônio da Silva, também está em Brasília ao lado da família, e disse “confiar cegamente” na Primeira Turma do STF. Para ele, é um dia “primordial” para os acusados que sentarem no banco dos réus.
O julgamento dos supostos mandantes dos assassinatos já começou na Primeira Turma do STF e deve durar até quarta-feira (25). A vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes foram assassinados em 2018, no centro do Rio de Janeiro.
Cartaz do Disque Denúncia pedia informações sobre assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes – Disque Denúncia/divulgação